CAUSA E EFEITO por M Herrmann

CAUSA E EFEITO
Uma das coisas que me causa impressão é a baixa percepção que em geral nossa sociedade tem de ações de causa e efeito sobre resultados obtidos.
Não raro, achamos que é tudo fruto de geração espontânea ou que, pela própria natureza ou cultura, as coisas tem de ser assim e ponto.
Duvidamos de nossa capacidade de fazer ou mudar os fatos e situações. E adoramos explicações externas, em geral que não nos atinjam em nenhuma forma de responsabilidade.
Dou um exemplo para tentar facilitar: nas comuns conversas comparativas entre os EUA e o Brasil, aonde em geral botamos nosso país para baixo, logo vem alguém e diz que estes dois países não podem ser comparados, porque são muito diferentes.
Claro que são deferentes; bem diferentes!
Mas porque não podemos compará-los?
Os dois têm só 500 anos, os dois são continentalmente americanos, multi étnicos, ex-colônias, ambos gigantescos e parecidos em área geográfica e recursos naturais; os dois com grande população, embora a norte americana seja ainda 1/3 maior, etc, etc, etc ….
Enfim, em tese, deveriam ser comparáveis, mas não são. E não são por conta de um processo aonde, em pelo menos nos últimos 150 anos, um deles, através de suas instituições, fez a grande maioria de seus deveres bem feitos e o outro, nem tanto.
Assim, embora potencialmente comparáveis, isto gerou de um lado um país que é 10 vezes maior em termos econômicos do que o outro.
É mole?
Nada disto foi por acaso, porque estava escrito nas estrelas, ou porque eles são mais trabalhadores do que nós (e não são…).
Isto sim é fruto de medidas que ao longo do tempo foram em geral racionais, lógicas, acertadas, com uma mesma constituição bem escrita embora já com 200 anos, com regras perenes e claras, com visão estratégica e sistêmica (embora em dado momento talvez nem tenham se dado conta do alcance disto tudo…), etc, etc, etc…
Um exemplo entre muitíssimos: há 200 anos, os EUA investem pesado em educação, universidades de primeira linha e pesquisa.
Do outro lado, nós brasileiros, em muitos momentos de nossa história, vivemos a experiência de caudilhos populistas, interesses pessoais, constituições montadas a cada 30 anos, regras mutáveis, insegurança legal, diferentes planos econômicos e conseqüente cultura inflacionária, demagogias, setores corrompidos, etc, etc, etc…
E o resultado é que depois de 150 anos, ficamos 10 vezes menores ou mais pobres, como queiram.
É óbvio que o Brasil também acertou muito. Mas é óbvio que acertou muito menos do que poderia ter acertado.
Após 400 anos de sua fundação, por volta de 1900, mesmo contando o tempo de colônia, os EUA alcançavam a marca de maior economia do mundo.
E nós, após 500 anos, recém estamos nos sentando à mesa dos 20 países mais influentes.
Bem, o que isto tudo tem a ver com o nosso Imortal Tricolor?
O exemplo que tracei, tem a pretensão de desapaixonar a discussão, colocá-la em terreno lógico e apolítico e buscar uma reflexão.
O Grêmio, no alto de seus 108 anos, fez uma longa relação de acertos, em média muita acima da concorrência. Afinal, fomos fundados na mesma cidade e na mesma época de então outros rivais, na época muito relevantes, como São José, Cruzeiro, Força e Luz, Nacional e por aí vai.
Mas só o Grêmio e seu maior rival lograram transcender a barreira da grandiosidade, alcançando a dimensão que tem hoje, com títulos nacionais, continentais e até do mundo. Tudo isto com milhões de seguidores fanáticos, que dezenas de países pelo mundo não tem como população.
Isto mostra que, por décadas a fio, as linhas de ação e gestão estavam em geral na direção correta, levando o Grêmio a inexoravelmente se distanciar de seus então rivais, criando profunda empatia popular, mística, trocando de “turma” e sendo hoje um Clube admirado em âmbito nacional e reconhecido em âmbito internacional.
O ‘tema de casa’ tricolor foi assim muito melhor feito que o de seus rivais. Afinal todos começaram ao mesmo tempo e tiveram as mesmas potencialidades e dificuldades iniciais de se erguer.
Todavia, depois de conquistar tudo isto, estamos há 10 anos sem ganhar nada de relevante, segundo as próprias palavras da direção atual, cujo conteúdo a massa gremista comunga.
Seria por falta de sorte ou pirraça do destino?
Será que a gangorra tem de ser assim, porque o destino estabeleceu que assim fosse?
Ou existem razões mais profundas para isto?
Se quisermos, podemos imaginar que 2011 não nos sorriu, porque na hora ‘h’, não tivemos ataque ou um centroavante diferenciado.
Ou porque nosso miolo de área era inconfiável. Ou porque o Ronaldinho Gaúcho não veio. Ou porque não ganhamos de um time que estava “morto” na zona do rebaixamento. Ou por outra razão qualquer.
Isto tudo é “varejo”.
Mas o que houve então nos outros 9 anos?
Vamos sempre achar uma ou mais razões pontuais em cada ano, como as que arrolei acima.
E a história será sempre a mesma e insistiremos em não enxergar onde está realmente o problema.
As razões de nosso fracasso são muito maiores e são de fundo estrutural. São de “atacado”.
Todos os clubes têm derrotas, crises e dificuldades.
Mas todos os que são equilibrados economicamente rapidamente se sobrepõe a elas e voltam à berlinda de títulos.
Já os estruturalmente desequilibrados, tendem a se abraçar nos insucessos e ali tendem a ficar ao longo do tempo.
Até o início de 1999, nossa dívida era em torno de 23 milhões, com uma receita que girava os R$ 30 milhões.
Ou seja, o Clube devia ao redor de 7 centavos para cada real que arrecadava.
Economicamente não era uma situação simples, mas era manejável.
No final de 2002, apenas 4 anos depois, a dívida do Clube era de R$ 96 milhões, com uma receita um pouco maior do que R$ 35 milhões.
Ou seja, para cada real arrecadado, devíamos 3 reais. Em português claro, tecnicamente é falência.
E aí, começam os anos de penúria.
A partir dali, algumas gestões se sucederam e todas enfrentaram brutais dificuldades para administrar esta dívida. Algumas ações importantes foram feitas (condomínio de credores entre elas) e por isto hoje temos uma relação ainda bem ruim, mas muito melhor, de dívida versus receita, que deverá terminar o ano em torno de R$ 2,00 de receita para cada R$ 3,00 de dívida.
Mas é também de se lembrar que ao tempo que pagamos muitas dívidas antigas do condomínio de credores, novas e importantes dívidas foram contraídas pelas diferentes diretorias.
É bem verdade que o quadro melhorou, embora seja ainda muito delicado.
Nos últimos anos, houve uma crescente profissionalização nas atividades do Clube (é muito importante dar especialidades à gestão de especialistas. Tão óbvio…).
Mas seguimos com um problema estrutural gravíssimo que não dá sinais de arrefecer.
Podemos até ter alguns prejuízos operacionais, o que na última década tem sido padrão.
Podemos ter até alguns episódios de fluxo de caixa negativos, o que também se tornou padrão e é muito grave.
Mas o que é muito preocupante e condenador do futuro é a conjugação destes dois fatores, o que tem ocorrido com freqüência assustadora.
Temos diminuído a relação de dívida versus receita via o aumento sistemático e saudável das receitas.
Mas temos tido uma incapacidade de reduzir despesas supérfluas de modo consistente e profundo.
Até pouco tempo, para pagar esta estrutura pesada e eventuais equívocos em contratações recorríamos à venda de nossos melhores jogadores, o que dava um alívio nas contas correntes do Clube (como conceito, é duro ter de vender os melhores para ficar com os piores…).
Agora esta possibilidade está profundamente debilitada pelo colapso econômico europeu. Ou não conseguimos vender, ou vendemos por pouco, quase nada.
A soma de todos estes fatores faz com que o Grêmio hoje necessite despender anualmente em torno de R$ 20 milhões para pagar juros de sua dívida e, se temos de encaminhar a cada ano R$ 20 milhões para rolar esta dívida, então obviamente nossa capacidade de investimento fica muito reduzida ou, às vezes, até nula.
IMAGINEM SE TIVESSEMOS R$ 20 MILHÕES ANUAIS ADICIONAIS PARA APLICAÇÃO NAS CATEGORIAS DE BASE E NO FUTEBOL PROFISSIONAL DO CLUBE?
É para isto que quero chamar a atenção dos leitores.
Não são centroavantes que não fazem gols ou zagueiros que seguidamente falham as razões para os constantes insucessos do Grêmio, pois foram estes que os recursos disponíveis no Clube foram capaz de contratar. Então, o que nos tem privado de glórias é a nossa incapacidade de investimentos em razão de contas estruturalmente desequilibradas.
Errar em contratações, todos os clubes erram. Uns mais, outros menos. Só que quando nós erramos, para contratar outro temos de recorrer a recursos inexistentes. E é aí que se alimenta a roda dos insucessos.
Causa e efeito!
Para encerrar, alguns exemplos bem atuais:
-desde 2007, quando caiu para a segunda-divisão, o Corinthians não fez nenhum exercício com prejuízo, segundo os próprios balanços do Clube. Ao contrário, investiu forte na contratação de executivos de primeiríssima linha, investiu forte no marketing (com mais de R$ 50 milhões arrecadados no último exercício neste quesito, um exemplo a ser seguido), arrecadou o dobro do que há 4 anos atrás, lucrou R$ 5 milhões em 2010 e pode ganhar o Brasileirão 2011, após vencer a Copa do Brasil 2009. Sua dívida é hoje três vezes menor do que a do Grêmio.
-desde que caiu para a segunda-divisão em 2009, o Vasco da Gama fez uma revolução estrutural. Assumiu um conselho gestor de alto padrão técnico, que tem na carismática pessoa de Roberto Dinamite o líder aparente, enxugou custos e quadros, contratou profissionais de alto nível para a gestão do dia a dia e renegociou contratos. A dívida histórica é ainda o dobro da do Grêmio, mas o fluxo de caixa é positivo. Como resultado, ganhou a Copa do Brasil 2011 e é candidatíssimo ao título do Brasileirão.
-e o Fluminense? Este também tem uma dívida enorme (o dobro da do Grêmio), salários altíssimos e não consta que tenha feito nenhuma revolução estrutural. Mas ganhou o Brasileirão 2010 e é protagonista de novo em 2.011. Neste caso a explicação é simples: o Clube hoje é sustentando pela UNIMED que paga 2/3 dos salários e contratos. A pergunta neste caso é inversa: o que acontecerá a este Clube, se a UNIMED for embora?

Marcos Herrmann – Ex-Vice Presidente, Conselheiro do Grêmio e membro do Grupo Grêmio Imortal
http://gremioimortal.net/archives/164

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