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‘DIÁRIO GAÚCHO’

Impressão vulgar sobre a imprensa ‘popular’

Por Luiz Cláudio Cunha em 10/02/2015 na edição 837

Reproduzido do Blog do Prévidi, 4/2/2015; título original “Uma vulgar impressão sobre a imprensa ‘popular’ da RBS”

 

Meu texto “A tesoura da RBS vai em frente“, publicado originalmente no Jornal JÁ e reproduzido no Blog do Prévidi em 13 de janeiro passado, mereceu três dias depois uma elegante contestação do jornalista Roberto Jardim, no trecho em que citava o Diário Gaúcho, o braço em Porto Alegre da chamada “imprensa popular” da RBS. Ex-editor de Polícia tesourado na safra de cortes do Diário Gaúcho, Jardim contesta a informação de que a redação do DG encolheu na crise de 20 para 12 jornalistas (“o número inicial em 2000 era entre 35 a 40… hoje, numa conta pelo alto, devem trabalhar lá cerca de 25 jornalistas”, diz) e repudia como “preconceituosa” a classificação de “vulgar” que dei à linha editorial do jornal.

Peço licença para fazer minhas observações. A saber:

1. Dependendo do momento, das circunstâncias e das fontes, os números da crise variam, mas a encrenca continua do mesmo tamanho. Minhas fontes diziam que a redação de 20 foi decapitada para 12 repórteres, 60% do total. Jardim corrige a informação, esclarecendo que a redução foi de 40 para 25 jornalistas, o que representa pouco mais de 62%. Ou seja, dá na mesma. Mudam os números absolutos, mas permanece a proporção assustadora.

2. Consultando rapidamente o site do jornal na internet, com nomes, função e fotos, é possível contar hoje – por enquanto – uma redação de apenas 26 jornalistas, dos quais somente 10 na função de repórter. Lá estão identificados, por área, dois editores executivos e seus subordinados por editorias: Dia-a-Dia (2 editores, 4 repórteres), Variedades (2 editores, 1 repórter), Polícia (2 editores, 2 repórteres), Esportes (1 editor, um colunista, 1 repórter), Opinião (1 editorialista), DG On Line (2 repórteres) e Diagramação (2 editores, 2 diagramadores, 1 ilustrador).

3. Jardim diz que é “uma visão um tanto quanto preconceituosa” minha avaliação como ‘vulgar’ do Diário Gaúcho, um jornal que, conforme meu texto, baseia sua linha editorial em “notas policiais, futebol, fofocas de TV e fotos na capa de mulheres com pouca roupa e muitas curvas”. Jardim lembra feitos marcantes do jornal na área que coordenou, a Editoria de Polícia, destacando, entre outros, que o DG foi o primeiro jornal do RS a alertar para os riscos do crack, além de denunciar o índice crescente de homicídios na Região Metropolitana de Porto Alegre.

4. Não desmereço o esforço dos bravos profissionais que suaram, com tanta dificuldade, para realizar um bom trabalho em suas áreas. Vivo em Brasília desde 1980, mas a distância não me impede de avaliar que esse não é um jornal que atraia minha leitura ou atenção. Há quem goste. Eu não gosto.

5. Fundado em abril de 2000, o Diário Gaúcho representa a rendição da RBS ao segmento lucrativo dos jornais populares que tentam capturar clientes, não necessariamente leitores, nas camadas menos exigentes da população de classe C, D e E, geralmente mais interessadas nos brindes de panelas, pratos, copos e kits de cozinha do que na qualidade da informação. O fast-food do DG é baseado em quatro editorias que resumem seu intragável cardápio calórico: Polícia, Esportes, Variedades e Esportes. Há quem goste. Eu não gosto.

6. Essa fórmula vencedora, embrulhada em selos diários que dão direito aos brindes, não é uma invenção da RBS. Ela prolifera nos grandes centros do país, como recurso de caixa das grandes empresas para driblar a queda de vendas de seus jornais tradicionais. São diários ditos “populares”, que seduzem seu público mais pelo brilho das bugigangas de cozinha do que pelo conteúdo de jornalismo de entretenimento que oferecem. Eles miram consumidores, não leitores. Não traduzem uma esperta manobra para ampliar o público que consome informação, mas refletem uma rendição às demandas mais rasteiras de quem busca utilitários domésticos casualmente embrulhados em páginas de rasteiro jornalismo. Todos nivelados pela grife que os identifica na triste mesmice: uma primeira página feia, visualmente pobre, cheia de fotos ruins e letras garrafais, manchada com cores berrantes e manchetes aberrantes.

7. No início do milênio, o campeão de tiragem do país, a Folha de S.Paulo, se orgulhava de ser “o terceiro maior jornal do Ocidente”, vendendo um milhão de exemplares aos domingos. Hoje não chega a 300 mil exemplares. O maior jornal do Brasil, com 302 mil exemplares, agora é o primo mineiro do DG gaúcho, o SuperNotícia, de Belo Horizonte, com a mesma fórmula vencedora e vendedora de jornalismo vulgar, embalado pelo preço baixo (75 centavos) e muita polícia, futebol, fofoca de astros globais e fotos de moças hiperdesinibidas em biquínis superacanhados. O Agora São Paulo, jornal popular do Grupo Folha, vende 110 mil exemplares, um terço de seu primo rico, a Folha de S.Paulo. O quinto maior diário do Brasil, o Extra,com tiragem de 225 mil exemplares, é o lado popular do Grupo Globo, oferecendo o mesmo cesto hipnótico de futebol, polícia, TV e selos para troca de brindes.

8. Mais do que uma discussão acadêmica sobre o perfil dessa imprensa “popular”, falam mais alto os resultados sonantes da estratégia marqueteira. Tanto que o Diário Gaúchocresce só com a venda em bancas, superando o primo rico da casa, a Zero Hora,que se segura principalmente nas assinaturas. O DG, acusa o IVC (Instituto Verificador de Circulação) de setembro passado, agora é o maior jornal do Rio Grande do Sul: vendeu naquele mês 185 mil exemplares diários, contra 170 mil da ZH. Como se vê, há muitos que gostam. Eu não gosto.

9. A política de resultados poderia justificar este duvidoso exemplo de jornalismo, que não satisfaz um paladar mais apurado. Os números provam que, cada vez mais, há quem goste. Eu não gosto. O sucesso de vendas não exime o DG e seus congêneres “populares” de serem exemplos de um jornalismo vulgar, que traduz exatamente o que penso sobre este tipo de imprensa que mira os sentimentos mais primitivos de um leitor que se move não pela reflexão, mas pela reação instintiva ao que é grotesco, bizarro, espalhafatoso – ou simplesmente “mundo-cão”.

10. É uma expressão inventada na TV pelo apresentador Jacinto Figueira Júnior (1927-2005), criador na TV Globo em 1966 do programa O Homem do Sapato Branco, que trazia para o estúdio, ao vivo, brigas constrangedoras de casais e casos repulsivos de polícia. Jacinto morreu, mas o estilo sobreviveu e prospera hoje nas grandes redes de TV, graças ao ibope persistente de apresentadores furiosos e mesmerizados como Ratinho (SBT), José Luiz Datena e Luiz Bacci (Band), Marcelo Rezende (Record) e outros menos notórios, mas que proliferam aos gritos em todas as manhãs e tardes nas telinhas truculentas do país. Traduzem, ecoam, berram sempre uma visão policial e teratológica da realidade, não a preocupação social de uma segurança pública falida e desarvorada pelas balas perdidas da incompetência e da violência. Há quem goste. Eu não gosto.

11. Este ‘mundo-cão’, que ajuda a manter a audiência na TV, foi adotado pela mídia impressa na chamada ‘imprensa popular” que procura leitores/consumidores a qualquer (baixo) custo e apelando para qualquer (ordinário) recurso. Ninguém deve se sentir ofendido pelos adjetivos que identificam esse jornalismo “mundo-cão” pelo que ele é de fato: vulgar, banal, pueril, pífio, grosseiro, vil, sensacionalista. Essa imprensa não define o caráter dos nobres profissionais que ali exercem seu ofício com dignidade, mas revela a essência da ótica empresarial que se preocupa mais com a receita e o lucro, e menos com a excelência da informação e a qualidade do produto jornalístico.

12. Roberto Jardim, o ex-editor do Diário Gaúcho, defende o miolo do jornal e do projeto, atribuindo sua má imagem apenas à primeira página: “Só a capa, que é feita para vender, não traduz o bom jornalismo que os profissionais que passaram e ainda estão por lá fizeram e fazem”. Pois eu não gosto do produto final, já a partir da capa, que traduz o tipo de jornalismo tacanho dessa dita imprensa “popular”. O DG de Porto Alegre tem um irmão siamês em Florianópolis, o Hora de Santa Catarina, nascido em 2006. Seus 30 mil exemplares, com preço de capa de 1 real, são vendidos nas bancas dos 15 municípios da região metropolitana da capital. Além do preço baixo e dos inevitáveis brindes de cozinha, o Hora centra fogo no cardápio que supostamente atende à dieta restrita de seu público de renda magra: notícias de crimes, aventuras amorosas de artistas e famosos, os lances do futebol regional e as fotos de praxe de mulheres com muita saúde e pouca roupa. É mais do mesmo, com a mesma fragilidade, a mesma banalidade, a mesma mediocridade. E há, como eu, quem não goste.

13. Fabiano Golgo, editor-executivo do Hora de Santa Catarina entre2012 e 2013também não gosta. Ele leu no Blog do Prévidi a contestação de seu ex-colega do DG ao meu texto sobre as vulgaridades do jornal gaúcho. E decidiu rebater as observações de Jardim, confirmando minha opinião e agregando seu importante testemunho sobre o que viu e viveu em Florianópolis, num texto publicado em 20 de janeiro passado. Produtor dos programas dos consagrados Flávio Alcaraz Gomes e Mendes Ribeiro na rádio e TV Guaíba na década de 1980, Golgo viajou em 1991 para os Estados Unidos, onde fez estágios na CNN, MTV e The New York Times. Mudou-se para a Europa, atuou como correspondente do Jornal do Brasil no Leste Europeu e, a partir de 2000, foi editor, apresentador e comentarista de revistas, rádios e emissoras de TV na República Tcheca. Dirigiu dois semanários de atualidades em Praga, o Redhot e o Mlada Fronta Plus, antes de assumir em 2005 o Metro, versão local do jornal sueco gratuito que se tornou o diário mais lido da capital tcheca. Voltou ao Brasil em 2012 para assumir o posto de editor-executivo do Hora de Santa Catarina. 

14. Pelo que contou no Blog do Prévidi, Golgo teve um amargo regresso. “Sempre fui hostilizado por não querer entender que o jornal é vendido em virtude dos cupons para retirada de panelas e outros produtos de péssima qualidade, trazidos da China por uma empresa terceirizada, e não pelo conteúdo, se não levarmos em consideração o horóscopo e o futebol”, escreveu. “Eu tentei mostrar que nossos editores – todos formados em Jornalismo – poderiam facilmente escrever seus próprios textos sobre os fatos do mundo, nas minguadas páginas do jornal que não eram ocupadas por conselhos sexuais, fotos de bebês, avisos entre namorados e fotos de buracos que a prefeitura de Florianópolis deveria consertar. Mas a engessada RBS não gosta de ondas, a não ser que sejam promovidas pelo sétimo andar da [avenida] Érico Veríssimo [sede da RBS em Porto Alegre], por um clubinho fechado de pessoas sem contato com a realidade de seus leitores.”

15. Golgo respondeu diretamente a Jardim: “Quanto à contestação do colega que foi demitido pelo Diário Gaúcho, eu fui orientado de forma diferente, recebendo a ordem de basear o jornal no esporte, nas amenidades, e não na relevância de seu conteúdo”. Golgo entra de sola na copa e cozinha do jornal: “A verdade era que o título só vendia mesmo por causa das panelas. Quando cheguei à firma, descobri que os chefinhos da parte catarinense vinham escondendo dos chefetes – tipo Marcelo Rech [diretor executivo de Jornalismo da RBS], da central mantenedora e decisória, gaúcha – o problema das tais panelas. A empresa distribuidora, que encomendava o produto da China, não entregou número suficiente de produtos e os leitores portadores de cartelas preenchidas com os colecionados cupons, que saem na capa do jornal, simplesmente não estavam podendo retirar seus sonhados utensílios de cozinha. E o atraso já se referia a três produtos. Há meses, as quatro moças do atendimento ao cliente não davam conta do número de ligações com reclamações diárias. Descobri que toda a redação vinha sendo obrigada, a contragosto, a também atender esses raivosos leitores, já que as telefonistas não conseguiam atender a todos. Chegavam a ser 180 ligações por dia”, revelou.

16. Golgo, assim como Jardim, faz pesadas restrições à primeira página e sua arma de sedução em massa – as fotos de garotas pretensamente sensuais. “As moçoilas que são obrigatórias na capa e na página central, inevitavelmente de biquíni e com silicone, me davam muito trabalho, pois, apesar de ter sido Editor-Chefe da Playboy tcheca, em 2002, era muito difícil cumprir a ordem do meu superior de escrever nos balões textos “safadinhos e picantes” sobre as senhoritas, e de criar mais dois, com o mesmo tom, para a parte interna. Portanto, a vulgaridade é, sim, elemento de venda do jornal. Eu mesmo, sabendo disso, implantei a chamada quase diária na capa da coluna de sexo, com frases apelativas, tipo “Por trás sempre dói? Esposa conta como aprendeu sexo anal com o amigo do marido…”, confessa o ex-editor do Hora de Santa Catarina.

17. Em agosto passado, quando o fio aguçado do consultor Cláudio “Mãos de Tesoura” Galeazzi escancarou a dura política de “reestruturação” financeira da RBS em crise, ceifando 130 empregos de uma só vez, a empresa tomou uma discreta decisão para economizar ainda mais à custa dos eleitores menos atentos. Um núcleo de cinco pessoas foi criado na sede da empresa, em Porto Alegre, para fazer o que muitos fazem, no recesso do lar ou na rotina do trabalho: apelar para as teclas do Ctrl+C e Ctrl+V, o prosaico Copiar e Colar. Páginas inteiras, das editorias de Mundo ou de TV, eram simplesmente copiadas do jornal principal para o jornal secundário. Isso acontecia da Zero Hora para o Diário Gaúcho e do Diário Catarinense para o Hora de
Santa Catarina
, economizando gente e recursos à custa da boa fé do leitor, que inocentemente imaginava estar consumindo material exclusivo. Sempre criativa, a RBS deu um nome em código para esta equipe que copia e cola páginas de um jornal para o outro: “Projeto LEGO”, o celebrado jogo de encaixe de peças que permite inúmeras combinações e imagens. A lúdica solução da RBS com o “Projeto LEGO” define bem o momento empresarial que vive, encaixando páginas mais baratas em jornais ajustados às combinações mais rentáveis, certos de que os leitores de jornais distintos em Porto Alegre e em Florianópolis não vão perceber o truque. Mas, há sempre alguém que percebe. E que acaba avisando o atento Blog do Prévidi.

18. O ex-editor-executivo do Hora de Santa Catarina, Fabiano Golgo, escancarou a prática no texto que enviou ao Blog do Prévidi, contando: “Logo de início, contestei o modelo preguiçoso e inadequado ao público-alvo do jornal, onde praticamente todos os textos do Hora eram versões encurtadas de textos originais do Diário Catarinense ou do Diário Gaúcho. Meu mais notório confronto foi em relação ao desrespeito ao leitor catarinense pela prática de se imprimir uma cópia da página central, de fofocas, do Diário Gaúcho, um dia mais tarde, no Hora de Santa Catarina. Isso em plena era virtual, onde – ao invés de ver a chefe da seção de “Entretenimento” lendo em papel, no próprio DG, feito no dia anterior, aquilo que ela colocaria na página mais concorrida do seu diário, no dia seguinte –, poderia menos preguiçosamente receber os textos via sistema interno de comunicação, e oferecer ao leitor um produto mais fresco. Praticamente dois dias de velhice das notinhas sobre idiotices – tipo o que a Bruna Marquezine disse sobre o Neymar – era algo que nunca pude aceitar e não me contive em ser insistente, em quase todas as reuniões de pauta”.

19. Golgo foi impiedoso na descrição que faz das performances do diretor-presidente da RBS, Eduardo Sirotsky Melzer, o popular Duda, nas reuniões internas do grupo: “Quando eu vi o Duda em um palco, dando uma de apresentador, durante um aniversário da empresa, com milhares de funcionários na plateia do Ginásio Tesourinha [em Porto Alegre] – todos com camisetas idênticas da RBS, e a Redação catarinense toda sendo obrigada a colocar os fones de ouvido e assistir a transmissão do evento em seus computadores e pelos televisores espalhados pelas paredes –, me pareceu uma cena com aqueles líderes comunistas, tipo o romeno Nicolae Ceausescu ou o general polonês Wojciech Jaruzelski, em frente aos seus Politburos, todos com o mesmo uniforme. Ou aquela propaganda do ‘Bonita camisa, Fernandinho!’… A versão Sílvio Santos do Duda foi comédia trash. Com carisma zero e problemas técnicos constantes, só não foi pior que suas reuniões, direto da Redação da Zero Hora, com todo o grupo, para responder às perguntas dos funcionários. Nunca vi uma pergunta sequer que não fosse sobre salários ou benefícios. O interesse pelo Jornalismo com J maiúsculo ou ideias sobre adaptação ao novo panorama midiático não faz parte do DNA da firma. A RBS leva os funcionários a fazer apenas o que são obrigados, recolhendo seus minguados salários no final do mês e rezando para sobreviver aos potenciais cortes anuais”, condena Golgo.

20. Os cortes, agora, são mais frequentes. São mensais, para diluir o impacto do ajuste implacável que tesoura empregos e salários. O Sindicato dos Jornalistas tem informações, não confirmadas ainda, de um acordo entre a RBS e a Delegacia Regional do Trabalho para que as traumáticas demissões em massa sejam parceladas em doses homeopáticas, reduzidas, semanais. Na primeira planilha de 2015, a de janeiro, o Sindicato gaúcho registra cinco demissões da RBS entre as 17 anotadas no mês. E avisa que outras quatro demissões já estão agendadas pela RBS para fevereiro, na previsão feita em 30 de janeiro – e que sempre pode piorar.

21. A RBS tenta enganar a crise do jornalismo com a solução mais rasteira e medíocre: demitindo jornalistas. De forma massiva ou em doses pequenas para disfarçar o estrago, a dura tesourada nos custos imposta à RBS pelo Método Galeazzi acaba turvando a visão de profissionais experientes, cada vez mais confusos e sacrificados pela crise de qualidade que compromete, a cada dia, o jornalismo praticado pela empresa dos Sirotsky em suas diferentes plataformas. Para quem duvida, basta acompanhar a crônica de horrores que o Blog do Prévidi registra todo santo dia, anotando erros, descuidos, deslizes, derrapadas nas informações e trombadas no vernáculo dos sites, blog, colunas, editorias e manchetes produzidas pela RBS nos jornais, rádios e TVs do grupo. É uma safra inacreditável de mancadas, muitas delas cômicas, que refletem amadorismo, pressa e inexperiência. São filhos diretos da política de cortes e ajustes que sacrificam os empregos, a experiência e a qualidade de redações e equipes adolescentes subjugadas pela rigidez contábil e tacanha de executivos de resultados, sem quaisquer compromisso com o jornalismo.

22. Os diretores e funcionários mais graduados do clã Sirotsky ainda tentam justificar tais equívocos, defendendo o acerto de projetos indigentes como os dos jornais ditos “populares”, que se explicam justamente pela pobreza – editorial, material, visual e ética. Um dos executivos da RBS chegou a comparar, para mim, os dois jornais da casa em Porto Alegre: “O Diário Gaúcho é e sempre foi um jornal melhor resolvido com o seu leitor do que a Zero Hora em relação ao dela. É um outro mundo, que a gente não entende e não vive. Por isso temos que ter cuidado com as análises sobre sua suposta vulgaridade…” Esta frase coloca uma questão intrigante. Se o jornalismo dito “popular” da RBS “é um outro mundo, que a gente não entende”, como se ousa fazer um jornal para um mundo que estes jornalistas não entendem e não vivem? Quem concedeu a empresários “deste mundo” a franquia para esta irresponsável aventura interplanetária que invade mundos estranhos com jornais de baixa qualidade produzidos por alienígenas que não entendem e não vivem o mundo de seus ignotos leitores? Essa é a grande, a obscena vulgaridade dessa impiedosa jogada empresarial que cava e escava leitores nos grotões da periferia, à custa de panelas chinesas de segunda e do mundo-cão de terceira categoria.

23. A RBS conseguiu, afinal, cair no fundo do poço da vulgaridade, virando ré de um inédito inquérito civil instaurado contra ela, no dia 27 de janeiro passado, pela Procuradoria Regional do Trabalho da 4ª Região do Ministério Público do Trabalho, que abrange o Rio Grande do Sul. O processo de número quilométrico, 0000177-85.2011.5.04.0019, oriundo da 19ª Vara do Trabalho de Porto Alegre, com oito volumes e exatas 1.511 folhas, evidentemente não foi revelado ao povo gaúcho pelo mais importante jornal do Estado, a Zero Hora. A notícia foi um “furo” do Blog do Prévidi, que noticiou este fato espantoso no dia seguinte à decisão da Procuradoria do Trabalho, já na quarta-feira, 28 de janeiro. Ali está escrito que a RBS responde, nos termos da legislação trabalhista, pelo item 03.01.06 do código, que trata expressamente do “Desvirtuamento de Pessoa Jurídica”, truque que os sindicatos costumam denunciar como “precarização do trabalho”. Na denúncia da Procuradoria do Trabalho, está escrito que a RBS virou ré por “desvirtuamento da relação de emprego pela determinação de criação de pessoa jurídica por trabalhadora cujas atividades eram prestadas de forma habitual e com subordinação, estando vinculadas às necessidades essenciais da tomadora do serviço”.

24. O maior constrangimento público e legal vivido pela RBS em sua história não é produto de uma desavença com nenhum jornalista importante ou conhecido. O pivô do processo é uma discreta senhora de 52 anos, com apenas 221 amigos na sua página do Facebook, natural de Porto Alegre, que nem passou por uma redação nem pelo ofício de jornalista. Sonyara Thiele, identificada no processo como a “reclamante principal”, é formada em química pela PUC de Porto Alegre, onde ingressou em 1988. Trabalhando no Banrisul, especializou-se em informática e em programação de computador.

25. Em 1998, conta Sonyara, ela foi chamada pela RBS para trabalhar no sistema de computação que administrava a entrega e a distribuição pelo Estado das edições de Zero Hora. “Eu nem era contratada, nem tinha carteira, nem salário. Eu ganhava por hora trabalhada. Mas tinha chefe, tinha horário de trabalho e viajava muito. Cheguei a ser mandada para Santa Catarina, para implantar o mesmo sistema no Diário Catarinense e no A Notícia, o jornal da RBS em Joinville. Até que um dia, em 1999, me pediram que eu abrisse uma empresa. Criei então a Thiele Informática. Apesar disso, me contrataram como pessoa física, reduzindo pela metade o que eu ganhava. Alguém do departamento jurídico me disse que eu representava um passivo trabalhista muito grande”, lembrou Sonyara ao telefone, na terça-feira (3/2).

26. A situação de Sonyara virou um inferno em meados de dezembro de 2010, quando ela testemunhou na Justiça do Trabalho em favor de uma colega de serviço. Seu emprego sobreviveu apenas algumas horas. “Fui demitida dois dias depois. ‘Você não ficaria aqui nem que fosse a melhor funcionária de todas. Você não vestiu a camiseta da RBS, ao testemunhar contra a empresa’, reclamaram. Eu fiquei muito abalada, foi a primeira e única demissão da minha vida.” Em fevereiro de 2011, Sonyara entrou na Justiça contra a RBS, reclamando seus direitos trabalhistas, vínculo empregatício, salários perdidos, férias, 13º salário, além de indenização por danos morais pela retaliação ao seu testemunho na Justiça.

27. Sonyara, hoje à frente de uma loja de artesanato em tecidos na avenida Juca Batista – a “Maria Antônia Patchwork e Bonecos” –, ministra ali cursos de bordados, cartonagem, bonecos, tricô e crochê. Entretida no mundo sereno e entretecido dos artesãos, Sonyara ficou surpresa com o desfecho retumbante de um processo trabalhista que capengava há anos na Justiça. Ela foi alertada pelo marido sobre o nome e sobrenome da procuradora do Trabalho que ele nunca viu: uma certa Paula Rousseff Araújo, filha de um ex-guerrilheiro e advogado, Carlos Araújo, e de uma ex-guerrilheira e atual presidente da República, Dilma Rousseff. Mentes mais criativas da cúpula dos Sirotsky viram na ação inesperada da procuradora Paula uma atravessada retaliação contra a RBS pela suposta linha de oposição e crítica de Zero Hora ao governo de sua mãe. Um Sirotsky mais esperto poderia imaginar, também, que é apenas a ação natural de uma diligente procuradora do Trabalho, chamada Rousseff, que cumpre sua obrigação funcional independente de ser ou não filha da presidente da República.

28. O processo em que a RBS é ré em inquérito civil aberto pelo Ministério Público do Trabalho revela que há na empresa dos Sirotsky quem goste do “desvirtuamento da relação de emprego”. A procuradora Paula Rousseff não gosta.

***

Luiz Cláudio Cunha

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